20 de junho de 2016

Exercício para a Serena Sede dos Cavalos


Ontem eu vi três cavalos no diferente das horas. Um de manhã, em meio à neblina, sonolento por causa do frio noturno ainda em suas costas. As costelas à mostra, sem adestramento para a violência das usuras humanas. O segundo, com as patas de lonjura, tão magro, mas tão magro que seu cansaço só se movia pelo chicote da tontura. O terceiro, foi na lápide da tarde... as patas no exposto das feridas, sem ferraduras, a brancura gasta no pelo, cansada, mas repleta de um casco de esperança incomunicável com Deus. Tudo tão nunca de acabar. Aquelas coisas pesáveis pareciam sem destino, carregáveis para sempre. E aquele cavalo sabia chorar mas não dizia. Ele pensava de que lado das horas viria a água. O alimento. O descansar, ainda que manco. Tudo tão nunca de acabar. Alguns ossos saltados. Para dentro. Para fora. Obedecidos. Os olhos parcialmente vendados, de modo a só olharem para frente. Às vezes conseguem perceber algum vulto ao redor. De gente, de bicho, de automóveis que assustam. Seguem na falta de espera e de fé e de escolha...e de escolta dos deuses!!! Dos meses. Não há trégua para esses cavalos. Nem intervalos válidos. Cavalos não brincam. Trabalham até sonhar. Com o correr solto. Cavalos têm serena sede. A parede móvel dos orvalhos reconvoca-os todas as manhãs para a tortura. E quando vem a noite... Também quem se importa com os cavalos? Alguns são até esquecidos, deixados nas carroças, já prontos para o dia seguinte. Seguinte...

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