11 de setembro de 2017

do que acreditar



As horas se entrelaçam
até o amanhecer depois das sombras.

Cores aéreas pressentem de sol as águas,
numa devolução do que acreditar. 

Uma implosão de sons no mar 
sucede o silêncio das plantas 
atlânticas.

Partícula foi a noite 
do silêncio todo em que me instalo.

Pacífica de amparo,
protocolo ampolas marítimas de ilhas,
no preclaro catálogo das águas. 

E me restauro. Devagar.  Mínima.

15 de junho de 2017

Mínimos Oratórios d'água para guardar hojes



XXXII - dos resílios -

E esta nova trajetória agora...
talvez seja uma pérola
pela parótida direita,
ou um alvéolo
por onde um peixe adentra
fora de hora,
em ritmo de mantra.

E se aporta, e se tranca
como se procurasse a porta
de sua própria casa
 marinha.

Sozinho é que se arrasta
fazendo ninho na foz do rosto.

E se cria sob a reza
de meus costumes.
Enraíza-se no ventre
do lóbulo superficial.

Com escamas em camadas
repetitivas.

Saliva. Jaula. Sal.

Glândula sideral:
desfaça a cela
da célula,

em alívios incisivos...
promova o desfecho,

o despejo desse peixe
para outros mares
mais amenos de mim,
e do sim que era não,
e do que era são
e se feriu.

Seja como resílio de rio,
cada lágrima em equilíbrio...
nas margens da catedral
em pálpebra. Agora.

8 de junho de 2017

Três poemas na Revista Totem & Pagu


https://totemepagu.wordpress.com/2017/06/07/onze-e-onze-2-poemas-por-patricia-claudine-hoffmann/


27 de maio de 2017

Já pediu o seu? :)

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Mínimos Oratórios d'Água



31- dos fiordes -

é campo vasto de paciência
e eu derivo
do cultivo desse desenho para dentro,
em desígnio inelegível
por decreto de descanso,

atrofio o músculo
cético do que já não escrevo
por extenso:

mastigo

e sigo a grafia dos retornos
com o tato sobre os espelhos
moídos de parâmetros.

avanço-me de silêncio
na circunferência nodular
em moldura de resistência.

desato contratos
com as mandíbulas subliminares.

contorno a areia retorcida
na calma discreta das falésias.

vagueio em toques, devoro
com as mãos destroncadas
de uma cegueira infalível,

a máscara abstrata sob o defeito
dos duelos prometidos
na fúria das desistências.

precisarei de incisões
atlânticas mais atentas
de ângulos e lágrimas.

engulo a esperança
porque estou apta
a transcendê-la.

adapto-a ao pêndulo da garganta,
às  glândulas das horas mais salivares,

quando salvarei
nos altares das súplicas
as poucas oferendas:

pequenos hipocampos deixados
nos fortes, nos fiordes da infância,
essa pátria sempre por se fazer.

- de onde hei de buscá-los
até nascer.

19 de abril de 2017

dos oratórios d'água...

Não, não é fácil converter a dor
nas curvaturas líquidas do que margeia.
Se havemos de dobrar também
os joelhos da incerteza
sobre a nossa própria areia.

Nessas quebras de sigilo
dos apelos,
do gelo pleno de flagelos
e 'anjos tortos' de outono.

Não é só de tristeza
o roer da palavra revezada
no fundo súbito do hábito.
Itinerante de fraqueza.

É também de lago e enredo.

A rima presa entre os dentes
logo cedo,
diante do que pressente.

É de se romper
ao menos um instante inteiro
da bagagem interior,
e seu granizo...
até chegar ao sorriso estrangeiro
de si mesmo.
Às certezas desossadas na viagem.

Para crer de novo na beleza
das azaleias... quando for hora da ancoragem.

Crer no zelo dos milagres
próprios da noite,
quando os poemas saem para rezar
na correnteza em flor.

E amanhecem!

Joseph Moncada

21 de março de 2017

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes



Mar de Gibaltrar

XXVIII - do catálogo das águas -

Partícula é a noite
do silêncio todo em que me instalo.
Pacífica de amparo,
protocolo ampolas marítimas de ilhas,
no preclaro catálogo das águas.
E me restauro. Mínima.

Anônima de critérios mais amplos
para a expansão das orquídeas
líquidas... cardíacas. Salinas.

Insulinas lunares, de ex-cores e pétalas,
raiam nas penínsulas libertas, das artérias. Ibéricas.

Cápsulas de sonos, distâncias e mísseis.

Ouço em soluço, florais de Bach,
para ninar pequenos apocalipses.

Música molecular. Rememos!
Remúsculo do mar ao vento dos veleiros.

Nós tínhamos o dia inteiro
para o velório involuntário das horas.
- Nunca o fizemos. -

E os cavaleiros atlânticos...
já quânticos de espera,

pastoreiam
em específicos recifes de espelhos,
cifrados para sonho.

29 de janeiro de 2017

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"Repare que teus olhos hão de sair renascidos das travessias poéticas desse livro de Claudine.O poema é sempre um micro mapa para o desconhecido. O poema insinua ensinar a ir, sem dar pista de voltar. A leitura é o caminho e o lugar a que leva o poema. O poema sai de cena quando termina, para que o leitor caiba na justa medida cristalina de se perceber transmutado, feito uma transfusão sem antídoto, que o torna outro, diferente daquele que teria sido não fosse este livro em seu destino."

(Joel Ghelen -  Editora Letradágua )


19 de novembro de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes



25 - das casas várias -

Um barco sempre sabe quando.

E sobe, em quadro,
despregado das paredes do quarto
crescente
desses mares.

E desce... e descende.

Estende-se
sobre o instante
itinerante dos seres.
Das sereias.

Antes do raro das searas.

Antes dos Saaras que habitam
os ausentes.

A água - com suas casas várias -
segue em frente.

E brota
 a seu modo.
Entre os cômodos das areias
fartas...
frotas de tudo.

19 de setembro de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes

XVIII - não era pra ser assim -


 Não era pra ser assim.
O despreparo apressado da razão
 arrazoando as rezas ribeirinhas da tarde,
em desprezo e redemoinho.

Um ninho de arames a confortar
o que já não tínhamos há muito
suspenso nas árvores.

Mas sim no lado abissal
 dos  corais.

Não era assim. Os florais submersos.
A dimensão de um mundo voo,
 idealizado novo,
sob a inspeção dos anjos,
já faltos de asas.

Era mais!

Era o flanar das falésias,
o sorriso agarrado na Boca
da Barra...
desde a infância...
desde as ovas.

Das ogivas elementares.

Do berro definitivo
a contorcer-se na escala
de importância dos ventres.

O ventrículo dos vitrais
abertos na igreja mitral,
a aparar os entrares
do pôr do sol no peito.

Não era só.
Que eu orava.
No pó do pátio.

A prioridade no leito dos olhos
fechando-se em ilha...

Era a navalha das coisas
distorcidas.

O esmerilho das mágoas
limando as farpas, as facas, as forças
no fim do fim.

Não era assim...
Os querubins quebrantados
de fôlego,
sob  as alegações iniciais.
Dos nomes. Dos cardumes.

Dos mínimos ânimos anêmicos.
Frágeis. Faciais.
Desarmônicos de coração.

Não era assim...essa agonia exposta
 como as duas tainhas lanhadas
no meu sonho.

Uma delas virando o pescoço
 - que sequer tinha - ,
com o dorso recheado...
o olho direito arregalado
desde o além
de onde me percorro.

Olhava-me de sim e de socorro.

Não era pra ser assim. Pra ninguém.
Porque ninguém sabia das alegorias
 de ser assim nesse mundo...
de ladainhas perdidas.

Nem as tainhas.
Nem as iscas mordidas
de mim.

O Fulgor das Amoras


Primeiro era a renúncia
desprendendo, minuciosa,
os ganchos nascidos
 - por experiência -
no coração.

Depois,  o fulgor das amoras
a converter tuas lavouras
em aço de memórias já devastadas
nessa era extrema,
quando um susto no tempo
desintegra tua viagem.

Eles são muitos, eu sei - os bárbaros-
Por isso estabeleceste vasta demora;
Para que a verdade principal
não execrasse tua solidão.

Solicitas à noite
o banquete dos alvos
com Fúrias inalcançáveis.

Mas não há recompensa
para o silêncio
se o ordinário te atravessa.

20 de junho de 2016

De onde me aguardo

Imagem: Charles Birnbaum _ Ceramic.


De onde me aguardo
uma calma de leopardo
lambe a parte contrária da tarde.

A praia extensa protege um amplo
florido de águas.
E eu garimpo conchas.
Às vezes faço um colar
sem lembranças.

Olhos de Rebentação



Vinha assim não se sabia
naquela estação.

O verde a descer entre os desertos
varando mil olhos de rebentação.

O primeiro sol depois do caos
abriga
a antiga plantação de existir
fora de época.

Os séculos em cachos
machucados de lugar,

refugam
para quem não sofreu
de safras.

Só o indecifrável dos dias nos remete.

Exercício para a Serena Sede dos Cavalos


Ontem eu vi três cavalos no diferente das horas. Um de manhã, em meio à neblina, sonolento por causa do frio noturno ainda em suas costas. As costelas à mostra, sem adestramento para a violência das usuras humanas. O segundo, com as patas de lonjura, tão magro, mas tão magro que seu cansaço só se movia pelo chicote da tontura. O terceiro, foi na lápide da tarde... as patas no exposto das feridas, sem ferraduras, a brancura gasta no pelo, cansada, mas repleta de um casco de esperança incomunicável com Deus. Tudo tão nunca de acabar. Aquelas coisas pesáveis pareciam sem destino, carregáveis para sempre. E aquele cavalo sabia chorar mas não dizia. Ele pensava de que lado das horas viria a água. O alimento. O descansar, ainda que manco. Tudo tão nunca de acabar. Alguns ossos saltados. Para dentro. Para fora. Obedecidos. Os olhos parcialmente vendados, de modo a só olharem para frente. Às vezes conseguem perceber algum vulto ao redor. De gente, de bicho, de automóveis que assustam. Seguem na falta de espera e de fé e de escolha...e de escolta dos deuses!!! Dos meses. Não há trégua para esses cavalos. Nem intervalos válidos. Cavalos não brincam. Trabalham até sonhar. Com o correr solto. Cavalos têm serena sede. A parede móvel dos orvalhos reconvoca-os todas as manhãs para a tortura. E quando vem a noite... Também quem se importa com os cavalos? Alguns são até esquecidos, deixados nas carroças, já prontos para o dia seguinte. Seguinte...

A metade do silêncio



Seja esta noite
a extensão de todas as procuras.

A cláusula menos escura
do que casula nos olhos
a lua.

Que areje a luz
enquanto Deus recapitula a tarde
e seu incenso de neblina.

Esteja esta luz na metade
do silêncio,

à curva do que germina.

Mínimos Oratórios d´Água para Guardar Hojes




17 - das curvaturas líquidas - 




Não, não é fácil converter a dor

nas curvaturas líquidas do que margeia.
Se havemos de dobrar também
os joelhos da incerteza
sobre a nossa própria areia.

Nessas quebras de sigilo
dos apelos,
do gelo pleno de flagelos
e 'anjos tortos' de outono.

Não é só de tristeza
o roer da palavra revezada
no fundo súbito do hábito.
Itinerante de fraqueza.

É também de lago e enredo.

A rima presa entre os dentes
logo cedo,
diante do que pressente.

É de se romper
ao menos um instante inteiro
da bagagem interior,
e seu granizo...
até chegar ao sorriso estrangeiro
de si mesmo.
Às certezas desossadas na viagem.

Para crer de novo na beleza
das azaleias... quando for hora da ancoragem.

Crer no zelo dos milagres
próprios da noite,
quando os poemas saem para rezar
na correnteza em flor.

E amanhecem
!

Um pouco do prosa...



Esquento a água para o café que não tomarei porque estou atrasada de tudo que precisarei. Tenho que salvar os peixes das emboscadas. Toneladas de tainhas. Tenho que avisá-las por dentro, dos perigos da estação. Mas não chegarei a tempo. Da moça que chora no ponto de ônibus sem dizer a razão. Não chegarei a tempo de mim mesma porque rasguei as horas num momento de exaustão. Os parâmetros são outros agora mas não há agora. São perímetros pisados de intuição. Um nada se dispersa aqui. Não há duração e as coisas não param e nem continuam. Estou fora do tempo mas não é de certeza, pois a memória ilustra formas de ser. Ouço os latidos de ontem do meu cão mas ele não está. O mar está do outro lado de uma sensação inalcançável. Ouço as batidas do meu coração. E a visão é a mesma que se vê de dentro de um avião. Só que de dia. O mar está no ar. Aéreo o chão. Nada mais é chão. A casa, o fogão se infinitam na luz. Respiro frações de tempo só as que escapam. Tudo está ficando longe do que é. Os peixes. As pessoas. meu cão. A água para o café. Meu corpo, minhas mãos se estendem ao nada...e me chamam e me acenam em despedida ou chegada.

Mínimos Oratórios d´Água para Guardar Hojes





XV - dos temporais - 


É vento líquido e tem patas...
Movediças.
Compacta os ossos das cidades,
arranca as vértebras das árvores:
desplanta seus dorsos,
alguns pela metade.

(Excerto incompleto na dobra
da tempestade.)

Enxerto versos nas juntas das mãos
para os que oram comigo
no minuto escorrido dos socorros,
quando se morre no ventre
de um carro,

e a terra, súbita,
se contorce em seu transtorno,
sob as ferragens da chuva.

O coração colapsa
até a raiz.

Não vida mais.

Só o que vibra,
no lado de fora do vidro,
- moído -
é o que o céu delibera
no granizo final:
a voz dos estrondos
- nada outonal -
a estender seus raios
no meio dos medos
humanos de maio.

A luz preparatória


Sabia ser de manhã por causa da luz preparatória. No oratório do instante concentrava-se de instinto com maior relevância...para alcançar de prioridade o fundo das vivências logo acima. Debaixo para cima. Repuxava o ar de um lado a outro, de dentro a dentro, em marcha, em máxima asfixia. Tranquila. Inquilina, às pressas, da alegria. Sempre nascia de alto mar. Em pulmonar coreografia. E subia para saudar...para soldar os toldos dos encantos. Todo santo dia.

Antes do Antes

.

Não era mais noite nem dia... no que queria. Nem sono nem vigília. Muito menos sonho. Era a antissenha das não-horas que jamais fariam falta para o nada. Era o informulável de si mesmo, numa esfera localizada no depois de todas as vozes. Tinha vazios de conforto num porto sem lugar que não fosse a estranheza, longe da estupidez estonteantemente humana. Distante dos rejeitos das auras barulhentas. Era de se desembrulhar as ondas. Sob os desmandos do vento. Antes do antes

26 de abril de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes

Óleo s/ tela - Tomie Ohtake - 1960.


15 - do estio  -

Estou no lado mais oco
das palavras, agora.

Socorro-me do que oro
e do que vigio
me cerco...

A seco,
obceca-me o rio.

Reage-me de escrita,
 em região incerta.
Pouca.
Aberta em mar fugidio.

Secreta de não saber mais
a direção desses vazios
aos berros...
          enterro ecos nas pedras.

Percorro, por precaução,
a anatomia das coisas
não mapeadas pela força...
das águas
que moravam no coração
e seu alpendre.

Pende do bolso do dia
uma península,
e uma bússola já dispersa,
há muito guardadas
para horas como esta:
de alarido árido.

Quando há um poema moído
entre as frestas da saída.

Mas ele às vezes melhora
na medida em que se manifesta.
Legítimo de ilha. Falho. Tardio.
Istmo de espera.

Estio.

Ampara-me nos ritos...
contorcidos no peito feito ferro,
pelos ritmos, se estes se alteram.

Soletra-me de hidrografias quistas.

Mesmo que não exista nenhuma pista
 de quando virá a tempestade.
Mesmo que as aves sufoquem no relento
aéreo.

Porque fúria e firmamento irrigam
 apenas o mistério
- nada térreo -

Nuvens, isoladas dos solos sedentos,
 chovem para dentro.

Alento-me ainda das sílabas
que sabiam, e que saíam dos lábios das Sibilas.
Aos meus lamentos pastos!

Céticos. Mas cânticos!
Pastos. Mas cânticos!

Humanos de rosto.
Semânticos de rastros.

Sétimos de tantas semanas
não marítimas.

Mas.

Tesouros de Procurar

"Gudi" - Tintas mistas sobre tela - Rafa Barrozo

Antes fosse. Só o medo a consentir a entrega dessas pedras preciosas da infância e seus tesouros brincados de procurar. Nunca os achamos. Mas tínhamos fotografias das manhãs de sábado no meio dos gados. Felizes! Bolas de gude mais valiosas as azuis que pareciam planetas e as brancas com anel esverdeado. Não é de se pensar que em estado de paciência, os verbos profiram quartzos, rubis, safiras de descrença,  centenas de sentenças poéticas e pontes. Algumas já de safenas.  Não é de se pensar não. Que estou no canto menos terreno do quarto agora e socorro-me de selva para escrever coisas mais amenas, como um passeio imaginário pelas savanas e por tantas semanas quantas forem necessárias, a fim de acreditar que todo pranto será removido para muito além de um lado a outro da parede em riste. Esse ponto triste se move no excesso dos olhos.  Atravesso-o. Faço um transplante de sonhos. De ossos. Transparente é o acesso,  vidro moído rente à cara e umas flores num copo logo à frente. Tenho palavras dormentes, presas nessa pressa, nessas correntes de ar,  no lado de fora do acaso. O sono se repete e me leva ao pomar suprimido de meu pai. Os figos eram guardados para mim. Os figos!  E as fugas e os anjos. E as laranjas. Limas... depois de serem miniaturas de flor em lume. É meu costume vir aqui. Podar as pedras, as perdas... imaginar o antigo vermelho dos caquis. Mas não é de se pensar nos adubos da devolução. São verbos de nervos entre os relevos daqueles tesouros de tentar...e essas árvores inexistentes demais para o brotar. Antes fosse. Só isso.

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes



XIV - dos resgates  -

Bendita a idade das suturas
se a água fratura suas datas.

Percorro os ossos das cascatas
feito quem resgata de si mesmo

o código de um ofício,
no córrego que passa
por dentro do cálcio, do ócio proibido,
entre os pés do precipício.
Trôpego. Antídoto.

Trafego uns princípios de louvor
e eles afloram no clamor do instinto,
em labirintos musicais

de um cais infinitamente distinto
 dos demais. Um cais já com muletas.
Navais.

(E as borboletas nos varais
recolhem a polpa dos orvalhos.

Além da culpa. Dos não-itinerários.

Embrulham nas asas o pólen
de uns rosários em flor
aberta pétala por pétala
dos calendários.)

Descansemos dos sentidos.
Anti-horários. Antigos.

Descansemos assim
que chegarem os querubins
para o restabelecer das águas
quebrantadas.

Cada água tem seu exílio.
Auxílio. Apelo.
Com seus cabelos em véu
de espuma e espelho,

uma a uma...
ainda prece.

Acresce-nos do que fomos
e do que não seremos...

nas refinarias dos dias menos
sagrados,
com nossas feridas contadas.
Mancas.

 Serenemos!

Mínimos. Pequenos.
Vertebrados e sós.

Tal qual a voz das ladainhas
no leito dos enfermos, saibamos

descer um tom e meio, a eito,
nos alados prelúdios de Deus
 e seus dilúvios-gládios.
Prévios. Do que está feito.

O outro Nome do dia



Não era de doer o dia. Se contemplamos a cerração da vida antes do mormaço. Andarilhos que somos de uma sempre nova espera. Se acreditamos desde já em nosso humilde desfecho cíclico e vimos melhor, por antecipação, nossa rápida participação nesse mistério. Não era de doer o dia. Mas se um cão bebe água da poça e no contar dos próprios ossos esboça-me sua fome, o dia passa a ter outro nome. Onde nada mais dorme. Sobre a plataforma disforme do viver vejo um viveiro à deriva...E tenho medo da raiva. E arranco a relva tentando salvar a calma na palma soterrada do lembrar. Se éramos pássaros e já fomos pomares. Se fomos areia marinha no revirar das ondas com seus nervos pelos ares. Nós, que sequer sabíamos chorar...desde o ninho das contendas, quando sonegaram-nos o canto nas quedas da floresta. Basta apenas mais um acalanto de concentração. Mais um, apenas, para que aguentemos o desaguar desatento das coisas prometidas. Para que o amor nos reaja em rajadas alcançáveis ainda nesses ventos. E o sofrimento nos proteja desses outros dias que faltam para salvar a luz dos esquecidos sob os limbos, sob os lírios do campo e os símbolos dos serafins, dos jardins enlouquecidos, das rosas enlaçadas ao corpo,  do torpor das calçadas e outros desalojamentos. Porque não é sempre que chove. Porque há de haver uma coleta de sóis mais amenos depois do que pudermos durar. Uma colheita a dourar a epiderme secreta dos destinos. Se não desistirmos no meio da flora do coração - também canino - No meio da última hora aberta sobre a terra. Quando lançarmos mão do aço e soltarmos do pulso o cronômetro do cansaço...e só a esperança, enfim, puder nos acertar. De vez.

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes


13 - dos renasceres -

Haja alicerces às margens
 ainda de ser...

Para quem quer que seja!

E tijolos e júbilos freáticos
no subsolo de cavar,
desde os calvários,
renascimentos quantos...

Aquáticos. Quânticos.
Sonâmbulos.

Cimento. Cal. Vento.
Reinventário de hidrovias

de onde se via, mais cedo,
um sol a escaldar
a vivenda das promessas,

nessa missa a se verter
por dentro do retiro

entre respiros e respingos
 de retirar o míssil
 do navio e seus veios...

feito quem reitera
os próprios pulsos
e outros pertences
de lutar.

Sob o luar, no outro lado da água,
densa,
prorroga-se de crença uma oração,

até a quase última estação...
sem subestimar uma única
peregrina lágrima
do progredir...

na duração dos sudários,
na eira sem beira das ribeiras
de tudo o que morrer já não pude.

Por aço ou açude.

25 de março de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes



XII - dos aguaceiros -

Ainda é cedo
nos ossos adormecidos
das batalhas.

Sonhei que estava lendo
esse poema - agora em curso -

Mas creio que não era
em nenhuma praia.

Era um não lugar. Avulso.

E eis que ontem
os aguaceiros foram trazidos
pelo mormaço.
Aos sustos.

Aos justos de sede e de séculos.

Hoje o céu nublado em círculo
se espalha.

Há uma navalha de nuvem
 acidental que reinventa a si mesma.

Quaresma. Prisma interior.

Vigésima água repetida
de tudo o que trago.

Mil olhos machucados
de entulhos e talhos
nas arrebentações.
Bentas.

Tantos gatilhos socorridos
em doses lentas,
e outros estragos na estrada
estrutural do tempo.

Temporal ainda submerso
nos poros dos reparos.

Dispara-me a noite
com seu universo.
Faz-se clara, encharcada,
nas palhas dos porões...

Nas colisões das quilhas
choro...em localização.
Olho para os astros.

São rostos imantados
das armadilhas já dispersas
dos desperdícios cíclicos
de vidas,
das quais há muito perdi
o rastro.
O risco. O grito. A chave.

Mas os caminhos se abrem
em guarda-chuvas.

Às coisas novas.
Às coisas uivas.

Mínimos Oratórios d'Água para guardar Hojes



11 - antes de acordar -

Creio mais nos sábados
porque acho que eles não sabem rezar.

Minutos antes do acordar
costumo vir aqui
nessas nascentes
 preparar os olhos

e manter em dia
as oradas do porvir.

Espargir gotículas seculares,
recolher os benzimentos,
proteger os lugares mais sozinhos
do pensamento.

Música celta involuntária. Aquática.
Cética. Ática.

O mar Egeu não me elegeu guarda-vidas.
Mas Deus?!!

Eu...que navegava em liturgia e
sem fronteiras,

que tinha balsas!

que não acreditava no passo em falso
dessas ondas...

e as chamava pelo nome.

Desanimo dos ninhos marinhos
de Deus - de novo Deus -
 mas não sei...
 onde Ele estava na hora tão brava.

Agora - de novo agora -
tudo está a um palmo
da alma
e ela é líquida.

Tudo é líquido.
E foge pelos cantos dos olhos.

Porque não há acordos no mundo.
Ao acordar.

8 de março de 2016

A mulher de que sou feita



A mulher que de mil longes
me alforria
 chama-me para o exemplo
de um tempo que se ausenta.

Um campo
 repartido de palavras,
com flores carpidas dentro,
a concentra.

A mulher em que me hospedo
aprendeu a domar metade das pedras:
emparedou-as nos preâmbulos
do rio.
Não lembra mais em que rio.

Aprofunda o desafio
de saber o que já não serve
para sorver...
na curva incerta das falanges.

Absolve-se de tudo que ainda range.

Abrange-se nas margens descalças
- tão mais libertas -
do manco dos tamancos.

A mulher em que me estanco
não se isenta daquela que não fui,
mas flui, atenta,
aos trancos...
no tinto vinho dos quarenta.

Experimenta a vida desde a ida
dessas vinhas.

Dessas vindas...e vindas.

2 de março de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes

Óleo s/ tela - Tsunami - Laura Madeo


X - das Tsunamis -

Conseguíamos seguir
aqueles peixes que saltavam
 para fora do oceano.

A velocidade tão vasta,
 nunca menor que a sincronia
de ir embora.

Guiavam-nos num mar alto,
já sem espectros.
Sem mitos.
Em litros de palavras
doadas pela coragem que tem...
todo perigo.

Agora, jogadas num canto
do infinito
daqueles dias,
açoreiam as margens,
as cartilagens das horas...

Aragens incumbidas
de esquecer.

- desábito -

O sol abatido
 nas travessas das nuvens
continua
 a ser apenas o que sempre foi.

Um sol. Soldado. Solícito.
Mas que sabe raiar a água
com mãos de ouro.

Auras e ouriços.
No coração movediço
de lembrar.

Enquanto o retilíneo mapa dos sumiços
predomina. Desafia.

Havia uma bacia de alumínio
no quintal calorento de sermos
criança,

onde guardávamos tsunamis
em miniatura,

entre os liames das rendições e das solturas...

etéreas ondas vindouras
ainda estouram por dentro do presente
de nossas idades.

 Cidades interiores.

Incidem nas saudades recusadas
no recuo das memórias

dessas marés em crescimento.

Sonhávamos com Deus
numa plantação de alentos

em plena reconstrução
pelos cedos das manhãs.

E tínhamos o frio das tainhas.

E tínhamos cedros.
E tínhamos credos...

Nada do que não pudéssemos
nos salvar.

Chá das cinco

Relógio e xícara de chá - Regina Oliveira


O vento vasculha meus esforços.
Não sei se posso
arremessar-me dessa ilha
para as derivas medievais.

Não sei se devo
averiguar os verbos tanto, na verve
turva dessa instância.

Perder o prazo na dúvida
 num atraso da tristeza.

Organizo granizos sobre a relva
vespertina.

A tarde aglutina minha selva
posterior a tudo.

E mudo.

Salvo sálvias no interior da horta.
Legítima de charco.

Aorta marítima no relevar dos barcos.

Velejo bálsamos dentro do chá
das cinco.

Finco a âncora no amparo
do meu templo.

Amplio a casa no descaso.

Tento.

24 de fevereiro de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes

Cataratas do Niágara (Canadá) - Autoria desc.

9 - dos reservatórios -

Alojo hojes
desde as esfinges preparatórias
dos penedos.

Desde os flúmens minados nas regatas,

quando as cataratas
eram mais longe
que o despenhar da calma.

A espuma ainda espalma
noventa elmos emoldurados
nas quedas. Livres.

De onde estive
tudo se revira e se renova.
Fluido. Prova.

Porque eu liquido
 a antiga novena desgovernada,
para o equilíbrio do emblema.

É pela foz da lembrança que se revezam
essas rezas no poema:

raízes resignadas
em reservatórios.

De existir.

16 de fevereiro de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes

Imagem: Marc Henauer
VIII - da imersão nos dias

Remir-me
no estreito dos igarapés,
através do corpo em salmo.
Salvo a promessa adiada
de esquecer aqueles dias.

Imersão. Compressa.
Glândula do rio.

Peito raso. Ocaso.
Olho mais fundo que o vazio.

Rápida calêndula. Gôndola.
Calendário d'água. Memória.
Morna. Sonda.
Sublimação do estio.

Lavar a cruz
do que não se cumpriu
esforça muito uma oração.
Se há elevação.

Escavo no rosto da sombra
um outro leito.
Até completar o abrir da lágrima
na remissão do extremo.

E remo.

10 de fevereiro de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes



7 - Dos recolhimentos da manhã

O que é do relento
está preservado na procura.

Escultura líquida. Onda.
Queria quará-la até a pérola,
no rastelar da areia que recobre
a orla. Primeira e última senda.

Oferenda que
prometi ao sumidouro:

uma lavoura de córregos
que prorrogasse o sol, o soro
espelhado ao longo da lagoa.

Há uma canoa vindo agora.
Abrindo labirintos
enquanto rogo,
com o suor no gesto do gerúndio ainda...

O rosto alagado de nascença.

Rogo pela criança que era múltipla
de crença e riso.
   
Não ouso mais duvidar da súplica
desde as enchentes principais,

quando mananciais dormiam no sótão:
melhor superfície da palavra frio
e outros extremos.

Mas é das alturas pluviais que renasce
a floração nos ermos.

- Para sabermos.

3 de fevereiro de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes


VI - dos entremeios da noite

Sempre por essas horas
turvas nos olhos,
tenho cais.

Levo meus castiçais
até um pequeno lago
anterior.

E chovo.
Do interior de tudo.

Atada
é que entendo as mãos.

Ateio fogo às velas sobre a mágoa
na embarcação.

Trago todas as sequelas
para fora da infusão.

Rezo peixes e versos...
submersos do que mesmo são.

E eles respondem
desde o primeiro deserto:

 todo barco que soluça perto
 do coração da correnteza,
 se torna leve no dilúvio.

Luz no declive do alívio.
Inclusive.

25 de janeiro de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes



5 - do Arrebol

Estabeleço conchas
para as solas
insulares

dos lugares de onde
acordo.

Estou a bordo
de não pertencer
tanto.

Trituro na pouca fome da boca
 o atento pão
molhado em espanto
e sal.

- sim, ainda há espanto -

Sou matinal de idas
e ondas.

No centro do café
enleio a lida e abro nos olhos
o jornal

para o gole ancestral de cada espera.

Tenho manhãs e unhas
arrancadas no escuro
fundo
das marés.

Pelo que sei
atravessei a ponte
 submersa
na ponta dos pés.

A nado, nácar e nada.

A parte mais solícita
dos mapas

era míope

mas anfitriava
de fé
toda a água

na sobrevida
da escalada.

20 de janeiro de 2016

Escreverei mais tarde



Escreverei mais tarde. Quando for menos perigoso o sigilo dessas coisas não exprimíveis a sol aberto. Há grilos na luz. E mariposas despertas ainda na cozinha. Gritos verdes. Escreverei assim que tudo estiver quieto. Fixo. Durante o sono dos mosquitos. Sono definitivo. De inseticida involuntário. Extermínio vital? Caminho por dentro de onde se alternam cenários. Penso nos pés de Ingá...como eram doces os ingás. Pareciam ervilhas ou vagens mas isso não importa. Eram doces. Direi também dos orvalhos colhidos nas viagens das manhãs pequenas que prometeram e não voltaram. Havia muitas maçãs silvestres. Listradas. Suspensas em duas estradas que só podem ser vistas uma vez por mundo. Por causa da tempestade permanente que se inicia após a observação. Observar adentra. Escreverei, antes de mais nada, a respeito da concentração dos delírios que fazem sorrir o sal sobre a carne interferida dos navios. Como posso esquecer de registrar, ainda que depois, os navios, se eles protuberam durante todo o corpo dos oceanos daquilo que nada sei? Sei. Mas não agora. Escreverei mais tarde sobre a metade dos esconderijos à prova de tempo. E de medo. Eles se constituem de túneis de água invertida, inédita de salvação. Perguntarei se você sabe do desespero do peixe diante da fisga. Não há fuga nem fôlego nem escapatória nem misericórdia. Nada é cordial na extinção. Quero misturar os assuntos mas não será preciso porque eles já são um só. Barco. Berço. Arco. Eco. Eco. Aço. Água. Massa. Corpo. Carpa. Música. Físico. Carma. Febre. Febre. Febre. Escreverei mais tarde sobre a tranquilidade do dono dos bois depois de entregá-los no matadouro. Ele foi almoçar no restaurante de frutos do mar e reclamou do trânsito, palitando os dentes. Bifurcar ajuda a confluir. Estamos na mesma fila. Somos os  filhos das falhas que decepam o encanto. Escreverei mais tarde. Da borda do enquanto. Do enquanto...

16 de janeiro de 2016

do que sonhava a idade



A sequência dos trigais
não se eleva em desistir.  

Subsemente convoca-me
às geografias do solo:
repete-me sem dor
e sem estilo.

Tranquilo abismo
de turvas nomenclaturas.

Agricultura interior
arando o peito
colheita a dentro,
meus ossos crescidos.
Fratura em flor.
Pele.

Tudo mais simples
do que sonhava a idade
plena de livros.

Cerimônia e silêncio
me esperam
 no lado de fora do
obstáculo.
O sono escuro.

Estábulos circundam a noite,
e seus cavalos de pensar
pretendem ficar mais amplos.

Entre os campos
cabelos dormidos de engenhos
e escombros.

Calendário escasso.
Os números machucados
antecipam com as luas as lutas...

Cadapedra é pão que não se cumpriu.

8 de janeiro de 2016

Lá fora já está aqui...




Pressinto assuntos melhores para hoje. Há sol nos remendos da cortina de estimação. Caracóis e ostras no outro lado da praia. Vivos. Esse vivos está sobrando no texto. Há um varal desistido de arames. Aroma de bolo de canela e de um café recente passeiam pelos cômodos da casa. A janela se abre com seu vestido de tergal. Moram miniaturas de âncoras e rodas de leme sobre o tecido azul cobalto. Legítimas brisas marinhas que ajudam no impulso do ritmo semelhante ao dos balanços de ainda não ser adulto. Eu sempre olhava para cima pensando que as cordas tinham o dom de arrebentar. Mas não. Contrariando Jó, nem tudo aquilo que temi me sobreveio. O corpo ainda está na cama...prepara os olhos. Os ossos. Planta melhores paisagens por essas lentes. De contato. Levanta devagar para não acordar a parte abstrata do medo, e espia uma pipa com formato de águia. É tão longe lá fora. Ela rodopia e se inclina até a esquina da próxima nuvem. Estabiliza. Nada no ar. É o princípio das correntes por um fio. Azul suspenso. Arfa minha cidade interior, onde as ruas são densas de nascença por causa do esplendor adquirido antes da edificação das expectativas. Avanço. Debruço-me no colo das soleiras, à maneira dos que se rendem desprevenidos de culpa. Estou propensa a uma resolução. Mas só porque guardei amuletos para quando precisasse. Sair. Uma chave. Tetra. Um chafariz portátil com portal. E um retrato constante. Do tempo. Lá fora já está aqui. Desde de dentro.

7 de janeiro de 2016

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes



IV - MADRUGADA

A extensão da luz promete
 acervos mais calmos.

Alumbra meus ombros.
Finaliza dezembros cansaços.

Dizem que é vocação
precipitar o sono
por estas pedras na encosta.

Não sei se posso vir
mais,
esse fugir diagnóstico,
sem rotas de
ancoragens.

Os que submergem parecem números:
bumerangues humanos
sem volta.

Escolta de feixes
até a última gaivota
se fechar
nos pequenos olhos,
ainda recentes de viver.

Devotos soltos
- depois de mortos -
na orla.
Corpos à mostra
sem pérolas.

Córneas e pernas devolvidas.
Baixa maré.
Onde sonhos já não se debatem:
flutuam em nova casa
ou esfera.

Quando seremos nosso próximo
lume
onde abraços sejam remos?

Como será a chaga
nos restos das chegadas
nesses terrenos temporários
de estar?

Quando os itinerários
convertidos em sereno
para que nada do que
falte nos falhe?

De que lado nos aguarda
a fonte das advertências
com nossa água rasa,
em cruz lacrada?

Análoga lágrima
depois da ofensa
na madrugada...

resmunga a paz
desabrigada
em pingos
que aspiram
cicatrizes mais sólidas.

Perfaz o furo no peito
das proas.
Medita a mágoa
interditada
na caída da garoa,
essa filha das enchentes,
em crescimento.

Emancipa meus desertos.
Coloca de pé
a fé
desabituada dos relentos.

1 de janeiro de 2016

Para o ano novo...



Os fins não justificam
os medos.

Então
que ao menos os anjos
cuidem das marés.

E o mar tenha a generosidade
de não agredir
a fuga.

Porque há uns barcos pequenos
no lado de dentro.

- que ninguém faça mais
nascer a fuga -

Que o ano novo traga
estoques de ajuda.

Estanque as correntezas
do ódio,
transborde odes
de paz e amizade.

Que a fé não seja o único lugar
seguro,
 mas traga algo além
do alento
 no escuro.

Restaure os terrenos, as luzes,
os risos, os rios, as casas,
os camicases arrependidos...

Que a nova fase
encontre oásis humanos.

E que este não seja só
 mais um poema só
 de fim de ano.

26 de dezembro de 2015

A ponte pênsil do silêncio



Seguro a ponte pênsil do silêncio para escrever sobre  precipícios cegos, recém-chegados, com vista para a sorte. Singro-me e eles me refazem partir do ponto que mais nos atinge em queda livre: a invalidez das escolhas brotadas no leito crescente dos massacres. Alguns se dizem sacros, outros lacustres, outros embustes...todos sem nenhum acréscimo de humanidade. Rompem o lacre mal feito no parapeito das cidades e o que dentro delas nos transtorna. Escrevo sob a plataforma de uma fraqueza nascente. Mas que não se exime. Sob o crivo dos anti-alívios, dos uivos convertidos em raiva de tristeza. Saraiva interior. Sem  fortaleza estou perdendo o ritmo. Ouço respiros no rio e uns tiros longínquos num fado fixo advindo das derivas, lá onde Deus quase não salva: saliva. Soluça. Está bravo? Não sei... Não sei se devo escrever assim, miúdo, entre o medo e o mundo. Escudo e alvo. Selva. Não sei se devo levar-me em equilíbrio nesses vocábulos que não se acostumam com o desprezo, com o prejuízo súbito de ausências não prometidas. Então adjetivo. Adjetivo e desabrigo-me no transbordo das surpresas. Escrevo. Escavo meu coração feito o tigre a sua presa. Rezo. Mas tanto, tanto, que tento lavar a correnteza. Esfrego-a nos olhos feito quem esfrega a roupa na pedra.  Deito a cabeça sobre a mesa.  Dobro os braços, redobro a rima, mas é difícil porque preciso perfurar a escassez do frágil solo das urgências. É tarde. Tem rumo de naufrágio essa terra. Terror sem nome consentido. E o dia era de uma cor mascava. Sólida. Os nervos d'água mantidos, rijos, enquanto se alavam - apáticos -  os peixes e outros animais menos aquáticos. Matar um rio e seus filhos requer derrames pelo caminho e andaimes de arames na alma em farpa. Na alma em falta. Sozinham.


25 de dezembro de 2015

Bom natal...

Um bom natal aos amigos e leitores queridos...

Que o mundo seja melhor para todas as pessoas e também para os animais...para a natureza. Porque é urgente.


Que horas são?



Já vai anoitecer. Dormem os despertadores. Concentram-se as casas. As cozinhas. As coisas em seus lados de dentro se arrumam. Cheiro de Chá. De coentro. Faz bem para úlceras e dúvidas. Acelera o lirismo. Nesses meandros. Florescem quadros. Escudos. As tábuas dos barcos. O ar. Há um não-lugar fundamental para tudo. Eu sei. Existirá espera maior que a fuga? As possibilidades arrancadas de seus eixos, feito peixes, nem sempre se deixam abater. Algumas voltam sozinhas. Pulam para dentro ou para fora dos agoras. Revogam-se de fé até o afã de um novo curso. É isso! Isto é uma defesa sem época. De defeso. Preciso retirar a tensão destas palavras. Preciso tentar retorná-las até o seu estado inicial de correnteza. Fazer a gentileza do silêncio. O silêncio não é mais do que o corpo ainda não sabe. É um discurso. Ouço meu coração bater. E as portas. E os sustos. Motor de pulso. Fluido. Tenaz. O sangue faz um ruído de rio atrás do ouvido. Desce, pescoço adentro. Sobe. Ondula levemente a arte nas artérias. Engulo a saliva breve. Repetitiva. E o rio segue pela máquina jugular de que sou feita...Ou desfeita? Ainda estou aqui. - você está -  Existir é um tom. O tempo me alega - sem erre - e estreita. Nada é trágico. Sou apenas mais um relógio humano. De cordas e vestígios. Emano. Vogais. Vocalizo a água que esvazia dos dias.  Atravesso a ponte entre os ponteiros. Pondero a válvula mitral involuntária que me atreve. Abrevio o óbvio pelo menos tento. Sem vírgula. Fôlego pouco. Escrevo para aliviar a garganta no vento. Pra perguntar que horas são. Que horas sou...por exemplo.

Retrospectiva poesia.net 2015

Obrigada pela acolhida, poesia.net...

http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet346.htm

9 de dezembro de 2015

A antinoite ou o avesso do blecaute



A noite havia acabado de desistir de si mesma. Não escureceu, por insistência atenciosa do não. Guardou as estrelas e todos os seus aviamentos de céu. E não foi. E soube bem como não ser. E não sendo dormiu. Cedo. E. Não queria mais a sede efêmera no centro da misericórdia aos prantos. Aos humanos pastos. Aos restos tristes nos matadouros, antes de amanhecer. São muitos aos. Mas preciso continuar...Então, ela emprestava a distância em pedaços até se romperem os lapsos, as cápsulas, as penínsulas danificadas no peito,  os discursos e os cadarços, de fato. Nunca os laços. Tinha sapatos exaustos, inexatos  para os tablados pregados nos dois lados do fim. Do mundo. Porque o fim é assim. Duplo. Relâmpago amplo nos olhos dos postes com lâmpadas que acendem, mesmo que a noite não venha.  Foi um dia bonito. Automático de viver. Apesar da dúvida abreviar a súplica, pisei com desconfiança sobre o que não mais lembrava. O esquecimento estava firme mas eu queria ter certeza da gravidade das camélias, dos dentes-de-leão, das flores de algodão maciço nos vasos de aço. Das águas agudas dentro do sumiço. Alguns bichos noturnos não passeavam, assim como eu. Foram nove advérbios de negação até aqui. Fossem dez, fariam jus ao som de dizer da luz, que está cansada. Não?
- Seria a vez do sim...

25 de novembro de 2015

Antes de Amanhecer

Nu Descendo a Escada - Marcel Duchamp


Amortece-me a noite feito um azulado cavalo negro. Magro. Não, ele não é alado. Agrego ciclos infinitos no que não me vejo. Protejo potros indefesos nas guarnições da chuva, só que não quero falar de chuva. Mais. É cansativo. Preciso estancar as pancadas do pensamento, em terrenos menos movediços. Disso depende isso. Alagar. Não. Legar. Não. Largar. Também não. Ligar. Não encontrei lugar nem palavras que soubessem salvar a altura do invisível que me circunda de tudo em comoção. Foi então que construí essas palavras: párpio, flanura e auriência. Para designar a essência da mais neutra solidão. Inédita, como se fosse de outra desordem. As novidades estão lúcidas...comprimidas em comprimidos de aceitar. Nada mais tem pressa desde que absolvi o futuro. Há tonturas expressas aqui. Sento-me numa escada que nunca vi antes. Escuto para baixo. Deixo os escudos de lado na escala das fúrias. São árias antigas, cantigas contidas nos restauros da razão. Centauros dormem sobre o colo das esperas. Colocam-me em estado de reintegração no mundo. Às vezes choram um pouco de lutar porque têm as articulações machucadas contra o fracasso. O fracasso não erra mais de uma vez.

23 de outubro de 2015

Um pouco de prosa...



da série
Breves Ensaios Recortado para Pulso

49

Sinto sede. Entrarei logo cedo no  assunto pois preciso comprar pão. Que um violoncelo rubro reabrisse meu sonho no  estranho da noite era o que eu queria. Ontem. Mas não.  Estou indo à padaria, agora,  enquanto penso enlaçada ao sono que sobrou da vigília nada musical. Digo que a noite me acordoou por inteiro. Não adormeci para que a lucidez me guardasse um pouco mais. Porém,  não adiantou. Tampouco adiantaria chorar. E não é pra menos!  Tenho  braços pequenos pra sonhar com violoncelos. Por isso, poupo meus ombros e pernas, a fim de retocar as ilusões dos escombros para os quais fui cifrada. - Não era minha essa partitura. -  Vou dizer em miniatura, que talvez doam os pulmões da mudez, quando brotarem as flores aéreas e, desatados,  voem em forma de borboletas iniciais. Sem mais absurdos. Feito dois arbustos, bifurquem-se nos medos, nos meados do começo. E inspirem o grito mais agudo, por entre os tubos da falta, da flauta de tudo.  Talvez esteja lindo o dia, mesmo com seus alvos consumados. E os declives sem alívios. E as claves. Talvez eu tenha um barco azul e branco e águas inéditas embalem-me num silêncio definitivo. Talvez eu alcance o outro lado do talvez e isso não seja uma prosa mas  uma represa às pressas. Antes da hora.  Foi assim que amanheci. Por absoluta falta de audição: eu não soube ouvir mais do que pude. Quero pães doces.
Umas xícaras de açude.

6 de outubro de 2015

Gratidão...

Obrigada, poesia.net, pela matéria, pelo carinho e pela consideração. Abraço imenso,  querido Carlos Machado!

http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet340.htm

29 de setembro de 2015

A chuva sabe o que faz



Não sei se tudo vai ficar bem. Tem um atravessado de nuvens lá fora. Cores e formas que falam. Desenhos  e senhas suspensos no firmamento. Não mais tão firme. Portais. Portáteis. Portos encobertos no mar aéreo. Ao meu lado - em terra -  os pássaros se alimentam de farelo de milho, agora molhado pela chuva, sobre a mesa do quintal. Alguns gostam de frutas. Eles parecem bem, mas são mais agitados do que eram antigamente. E eles sempre conversam muito nessa hora. Qual o assunto? Há inúmeras hipóteses e todas são capazes de captar algum grão de alegria. São seis e vinte e dois. Às vezes não durmo, de medo,  mas não sei de quê. Depois, fico cansada e o dia se mostra interminável. A respiração das coisas  aumenta muito ao redor, conforme dilata-se o cotidiano, com suas atribuições de fazer funcionar o coração metálico do mundo. A respiração em si mesma pede para respirar, quando é assim. Porque há uma discreta asfixia na pressa sem comoção. Estamos correndo para onde? Percebo uma falta de inteireza nos relógios quando tudo está por se aguardar. E tudo o que se aguarda já está. Sempre esteve. E é sem volta. Sinto as belezas se desprenderem dos afetos, feito essas gotas que saltam do telhado. Na verdade parecem se jogar de um incêndio. Telhados são proteções, me disse uma especialista em almas, ao me pedir que desenhasse uma casa. Só porque fiz todas as telhas perguntou-me ela: "por que tantas telhas?". Disse-lhe que eram os alicerces, só que do lado contrário da casa. Ela sorriu com delicadas certezas em seu silêncio. Era silêncio bom, porém, não caberia nesse momento explicar uma por uma as goteiras dos sentidos, caso eu soubesse. Talvez uma espécie de pânico se estenda - hoje um pouco mais -, por causa dos vidros fechados aqui; das vidas e das dúvidas em aberto. No entanto, é um pânico quieto. Mais nos olhos do que no resto. É assim... para dentro, lá onde se misturam os mistérios. Não sei se tudo vai ficar bem. Os passarinhos tomam banho no pote de guardar chuva. Eles pulam com um ar feliz. A chuva sabe o que faz.

15 de setembro de 2015

Breves Ensaios Recortados para Pulso



SEIS

Abrevio o ritmo na conjunção dos fios. Agulho arrependidas aberturas na carne anterior a esta. Tenho as pálpebras repuxadas, nervosas de lembrar. Quando ainda era morte desistir do tempo, eu frequentava com menos cuidado as facas. Eu duvidava de Deus  com mais força e menos tarde. Hoje, sou tão domesticada a esperas, porque comprimo a morte em pequenos frascos transparentes. Assim, posso vê-la como se vê um animal mergulhado em formol. Ou nas cinzas de si mesmo. Assim, posso entendê-la pior. Tenho tanta tristeza da falta de escolha dos animais, sobretudo dos anfíbios, que conservam a pele com eterno rancor. Um dia, na saída dos fundos de um prédio, vi uns três ou quatro humanos capturarem um sapo. Depois, cuidadosamente, enquanto riam feio,  deram-lhe um banho de gasolina e riscaram um palito de fósforo, lançando-o sobre a falta de escolha. Queriam ver o tamanho do salto. O que era o tempo para aquele anfíbio? Como vingar sua agonia gerada pelas mãos de minha própria espécie? Imprópria. Não sei se o grito foi mais alto ou o salto. Eu tive que seguir. Aperto meus pontos enquanto penso no que penso. Então escrevo para alinhavar um pouco mais o pulso esquerdo. Enquanto isso, as horas vão  cicatrizando o anfíbio que há em mim. Antes que seja morte. Morte demais.

11 de setembro de 2015

Mínimos Orátórios d´Água para Guardar Hojes

III - NOITE



É quase ontem
em alto mar.

Do altar
escuto o escurecer

na escolta do sono.

Sereno em volta.
Escunas e sinos

Meninos longínquos
ensinam-me
- num choro secreto -
sobre o chão dos olhos
submersos
no rosto.

E me decretam
ser humano

 nas falhas.

Resgatam-me do rito
aflito
dos afetos.

Há sempre uma tontura
no caminho,

quanto menos marinho.

A mente reage em giro,
agora.

- Qual a parte mais segura
dos redemoinhos? -

Rodopio-me de dúvidas
para baixo da ausência.

A fim de que os eixos

dos seixos
me puxem a salvo

até o trapiche ou navio
mais próximo.

Desconfio da chance,
pela última vez.
 
Nessa escassez de alívio
me dilúvio.

Sou minha própria
âncora.

Elevadiça.
Manca.

Avanço-me
na alavanca dos vínculos.

Clavícula exposta
desde o labirinto.

Retorno à tona.

Em oratório secular
respiro.

Mantras escorrem pela boca
da noite
afora.

Migram a sede
até a outra margem

das demoras.

(De morar)

5 de setembro de 2015

Mais um pouco de prosa...

Breves Ensaios Recortados para Pulso



DOZE

Estou anoitecendo. Em cada cão que encontro morto às margens do asfalto pelas manhãs vestidas de novas. Nem vou falar dos cavalos magros, feridos diariamente no corpo das carroças, com seus ossos saltados de crueldade e olhos vendados pela metade. Atropelo-me de modernidade mas não sei. Não sei como organizar essas dores urbanas dentro do coração ainda humano. Penso nos cães e suas famílias. Quantos cães sucumbem solteiros? E quantos são esmagados ainda na infância pelas circunstâncias da pressa? Sim, a covardia tem pressa! Vias de expressas selvagerias. Vazias de qualquer possibilidade de se colocar no lugar do outro. É que os homens resolveram asfaltar as ruas e os animais. Então decidi comparar. Comparo os homens ao Deus: imagem e semelhança? Já os cães assemelho-os aos homens, salvaguardando a superioridade dos cães, é claro. A questão é: quem está no comando?  Eu vi um cão mas não queria. Não queria vê-lo com a arcada dentária fora da boca. Os olhos supostamente abertos. Indefesos. Nos humanos, por vezes, vejo mandíbulas e atitudes  infectas de sentimentos multidores, pavimentados de estupidez, com seus rostos altivos. Primitivos vivendo em tempo diverso. Contorço-me de tanto pensar, porque não sei despedir-me assim, demais. E depois, eu tenho muito medo de tudo que não seja cão.  Então, estou anoitecendo cedo e não é fácil alterar a morte desses cães em mim. E há os felinos também. E os gambás e os tamanduás e os lagartos e tantos outros que precisam atravessar, vez ou outra, nessa vida. E há os mistérios e as escolhas que eles não têm. Já vi humanos desviarem automóveis  frente a animais inesperados, mas também já me deparei com gente que riu e acelerou ainda mais o motor da brutalidade que, cada vez mais,  vai de encontro às pernas - já bambas - de minha fé.  Isso sem falar dos cavalos magros, feridos diariamente no corpo das carroças, com ossos saltados de crueldade e seus olhos vendados pela metade...Um sofredouro a céu aberto.

Breves Ensaios Recortados para Pulso



50
(o último da série )

É preciso entrelinhas nas ilhas.
Foram tantos fios paridos das agulhas... Com eles restaurei espaços e pulsos, que mais parecem raízes azuis. Alinhei cicatrizes em ponto cruz: caligrafias desafiadas no lado mais alto dos relevos. Escrevo solto para arriscar-me um pouco dentro da possibilidade dos abrigos. Feito alguém que abre um figo em plena fuga dos afagos, distraída, me fecho,  porque costumo ficar frágil na cavidade dos naufrágios. Mas não digo. Salvei dois afogados no repuxo. Só. Sobrevivi ao perigo daquele dia em que cortei meus pés nas conchas, e fiz um pacto com o mar mais próximo de tudo o que não se deve esquecer. Depois, conheci pescadores antigos que não sabiam nadar, mas na proa da canoa fincavam-se em equilíbrio. Eram especialistas em ficar de pé. Colecionavam candelabros e lamparinas nos ranchos de lapidar tempo. Temperavam tilápias  nas salinas da tarde e as assavam nos ventos da noite, nem sempre quente. Anciãos que  eram, coziam pirão desde os sonhos. Castanhos medos advinham das espinhas atravessadas em seus olhos. Quase sempre tinham dor nas respostas. Cegueira pronta sobre o dissabor. Das postas. Custa-me descobrir seu rastro, agora, no rosto fixo, enfaixado, da memória. Eu que nem pude salvar os peixes. Estou dentro do mar. Ainda. Há uma irritação solar a latejar nos poros. Não!  Não é o sol. São as algas. Quero dizer águas-vivas. Elas são tão imprevisíveis quanto raios. Saio devagar. Estou voltando. Ao meio. Antes, semeio barcos na correnteza. Devem nascer mais fortes, dessa vez. Talvez, haja uma lavoura de navios. De novo.

19 de agosto de 2015

Mínimos Oratórios d'Água para Guardar Hojes



II - TARDE

Um rosário de chuva
se move.

Envolve-me
na verve parda
da tarde,

como se não fosse
anoitecer.
Logo.

Rogo-me
num recital celeste,
 
engasgo em mim o antigo lago,
a lágrima álacre.

Grisalha. Ancestre.

Esgrima pluvial:

uns acenos feito espadas
d'água,
cruzam-se no vento
da enxurrada
monumental.

Molham tudo
o que não fica
no lado de fora

do  adeus.

Liquificam a fala
sob as capelas da pele

reabertas nas contas rasas
das costelas.

E inauguram
o recomeço
da promessa.

Sem que eu impeça.

Teço-me terço
na quinta essência
dos mistérios.

Já é terça-feira na ferida.

Intimidam-me ainda
as retinas da terra,
olhando-me de dentro
do rio,

à vespertina maneira
das esperas,

se os remos
são vésperas.

Trago as vértebras rezadas
nas roseiras do corpo,

esse campo de estancar améns.